quarta-feira, 26 de julho de 2017

VIDA QUE FEDE

You keep on movie - Deep Purple. Os olhos quase despercebidos vistos pela janela do ônibus passaram e só foram me encontrar depois que o amarelão laranja daquela roupa desbotou dentro de minha consciência. Voltava da faculdade e vinha pensando que já fazia uns dias que eu não encontrava meus dedos dentro deste teclado. Estava chovendo. Uma chuvinha chata que insistia em trazer o sereno frio e a pista molhada o que deveria reportar mais atenção para o motorista
daquele transporte. Eu vi um homem pendurado na trazeira de um caminhão desses que coletam e transportam o lixo. Era uma Terça-feira comum, não fosse por essa imagem. A impressão que passou foi de susto, sim, daqueles olhos assustados. Me senti um ser afortunado e ao mesmo tempo um dos seres humanos mais miseráveis, covarde. Para estar ali naquele emprego que não é visto com bons olhos o sujeito precisa de ter muita coragem. Um jovem que se submete aos subemprego empregado por circunstâncias desconhecidas. É um herói. Não preciso expor minha hipocrisia profunda para reafirmar uma situação mundial, penalizada pela nossa própria realidade. Medrosos os almofadinhas que escondem-se dentro de seus escritórios e coadunam com as teorias preconceituosas que tanto nos doutrinam. A teologia da Libertação é um alento para ejacular a podridão que nos avassala o espírito. Mas fica nisso. O teor religioso pode ser uma arma contra essa barreira na humanidade mesmo que sua capa seja desnecessária e insistentemente medíocre. Um dia serei corajoso. Minha filha será que alcançará essa coragem? Vou para dentro de meus instintos mais perversos e me descubro um desgraçado. A vida que vejo daqui de dentro é colorida, mas eu sinto seu fedor. Me acordem quando o mundo acordar e eu estarei sentindo o mesmo ranço. É para isso que escrevo sempre pensando em me consertar. O mundo? quem ousaria ser parte exposta? Poucos, bem poucos, querem suas vidas citadas, suas dores, seus flagelos, suas doenças, seus vícios, e é correto pensar dessa maneira. Um brinde aos corajosos. Aos seres quase despercebidos que nos ajudam a entender o mundo. Daqui de onde escrevo me coloco  apenas como um expectador covarde e medroso que se esconde atrás de um teclado compondo uma peça trivial de teatro mascarado e invisível.


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