terça-feira, 25 de abril de 2017

CONTOS - PRIMEIROS BANHEIROS DO NORDESTE.

Hoje resolvi contar uma história verdadeira e que deve, um dia, quem sabe, servir como base de pesquisa para os cientistas da Nasa e cronistas do movimento de descobertas interplanetárias das próximas gerações.
Resolvi conversar com minha mãe, Dona Terezinha (75), filha de Josefa e João (falecidos) moradores de Montanhas, cidade do interior do RN.
Mas o que eu conversei com ela? Ah! coisas de sua infância, precisamente da cidade e do lugar onde ela sonhou, onde ela passou a existir, onde ela morou enquanto criança e também viveu sua juventude e também como sua geração de amigos, namorados, outros irmãos, seus pais, vizinhos, se viravam para fazer as cagadas naquele tempo, sim, nós conversamos sobre os cagadores. Sim, sobre os depósitos de guardar bosta.

Bem, tudo se passa na zona rural de Montanhas, em uma pequena casa de taipa, com chão batido de barro, luz de candeeiro, diz ela: "luz, quando tinha o querosene, quando não tinha queimava sabugo de milho", disse minha mãe. "Tinha uma porta na frente, mas não tinha a porta nos fundos e teve um tempo que a porta da cozinha era de vara". Vara que era tirada e trabalhada direto do mato, das matas virgens dos arredores.
Uma casa baixinha com uma sala, um quarto, uma cozinha e um armazém.
Vamos explicar melhor para você entender bem.
 Cada vão dentro da casa era dividido por meias paredes, estilo antigo de divisão interna de dentro das casas.
Os vãos eram rudimentares, feitos de vara com o barro molhado como se fosse uma massa de cimento, barro crú molhado, o que chamamos de cozinha era um pequeno espaço quadrado que só tinha uma coisa construída, também feito de barro crú molhado e de vara, que era o fogão. Esse fogão era feito com duas paredes paralelas de um metro de altura distantes uma da outra mais ou menos um metro levantadas com barro e vara, feito lá num canto do vão que chamamos de cozinha, sobre elas era estendido mais varas e colocado mais barro, para fazer a base do fogão.
Em cima era feito mais duas pequenas paredes de um palmo de altura que serviam como local de entrada da lenha pra fazer o fogo e para colocar as panelas em cima, diga-se, panelas de barro, e estava aí feito o fogão. O armazém era um vão pequeno que eles usavam pra guardar as sementes dos roçados quando era tempo de safra, geralmente era feijão verde, milho ou batata e os ovos das galinhas caipiras criadas soltas pelo quintal, como eles costumam chamar: "soltas na capoeira". Preste atenção aqui douto leitor, que no final você deverá voltar a este trecho do texto para tirar suas dúvidas e fazer suas conclusões.

Bem, mas até aqui se o leitor atento percebeu, eu ainda não falei do cagador. Sim, do banheiro. Onde esse povo cagava? Diga aí mãe, como era o cagador? "O povo cagava no mato". "porque não tinha banheiro".
Alguns faziam um buraco no meio do tempo e colocavam uma sulipa de madeira, dessas grossas que seguram o trilho do trem.
O buraco era sempre fundo, redondo, ficava descoberto, e só era fechado quando estava cheio.
A sulipa era uma tora de madeira grossa, sabe essas madeiras que ficam na base dos trilhos de ferro? Pois muito bem, era uma tora de madeira dessas que por lá, em Montanhas, eram chamadas de sulipa, e que era colocada do lado do buraco, deixando uma parte pro sujeito, ali acocorado, despejar seus dejetos no buraco.
Tá aí, o primeiro banheiro cagador feito no Nordeste. Obrigado mãe por me fazer conhecer coisas de sua época, de seu sofrimento, de suas lutas, de seus sonhos, imaginamos que sonhar com banheiros arrumadinhos era uma constante, e que hoje, com os dois banheiros que temos, com vasos sanitários, pias, chuveiros e água corrente, tudo isso é um sonho que a senhora conseguiu realizar. Parabéns. Um beijo mãe.

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